O Paraná já contabilizou 2.348 incêndios em áreas de vegetação entre janeiro e maio de 2026, uma média superior a 15 ocorrências por dia. O número chama atenção justamente em um período em que o Estado entra na fase historicamente mais crítica para a propagação do fogo. Em 2025, foram registrados 9.064 incêndios ambientais no Paraná, dos quais 5.037 ocorreram entre julho e setembro, 55,6% do total. Entre 2021 e 2025, foram 45.928 ocorrências em todo o Estado.
A combinação de estiagem, baixa umidade do ar e vegetação ressecada aumenta a possibilidade de propagação das chamas e coloca em alerta não apenas áreas rurais e de preservação, mas também cidades, rodovias e estruturas empresariais. Por isso, o Agosto Cinza, instituído pela Lei Estadual nº 21.013/2022, reforça a necessidade de prevenção e combate aos incêndios, com atenção à segurança das pessoas, à preservação ambiental e à proteção do patrimônio.
No cenário nacional, 12,7 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo em 2025, uma redução de 58% em relação a 2024 e de 31% na comparação com a média histórica. Ainda assim, o período entre agosto e outubro concentrou 72% da área queimada no país, com setembro respondendo sozinho por cerca de 33% do total. Já em junho de 2026, o Programa Queimadas do INPE registrou 5.209 focos de fogo ativo em território brasileiro.
Papel do CASEM na pauta ambiental
Para as empresas, o risco não está apenas na possibilidade de o fogo atingir diretamente uma propriedade. Interrupções de energia, bloqueios de vias, problemas no transporte e na logística, queda no fluxo de clientes e piora da qualidade do ar podem comprometer as atividades e exigir mudanças rápidas na rotina dos negócios.
O Conselho de Ação para a Sustentabilidade Empresarial (CASEM) da Associação Comercial do Paraná (ACP) busca aproximar a pauta ambiental da gestão empresarial. Para Mauricy Kawano, integrante do conselho, químico industrial, especialista em qualidade, mestre em engenharia ambiental e professor de graduação e pós-graduação, a prevenção precisa deixar de ser vista apenas como uma obrigação e passar a fazer parte da estratégia das empresas.
“O CASEM cumpre um papel fundamental, tirar a pauta ambiental da teoria e trazê-la para o dia a dia de quem toca um negócio. No cenário do Agosto Cinza, o objetivo do CASEM é traduzir orientações técnicas em prevenção real, ajudando os empresários a enxergarem o risco de incêndios como parte da rotina de gestão”.
Prevenção começa dentro da empresa
No comércio e nos serviços, medidas básicas podem reduzir riscos e evitar que uma ocorrência se transforme em um problema de grandes proporções. Manter as instalações elétricas em dia, armazenar materiais combustíveis de forma segura, descartar corretamente os resíduos, manter rotas de fuga livres, treinar equipes e revisar os planos de emergência estão entre os principais cuidados.
Também é importante acompanhar as condições meteorológicas e os alertas de risco de incêndio, especialmente durante períodos de calor intenso e baixa umidade. “A nossa mensagem principal é prevenir incêndios não é burocracia, nem tabela para cumprir. É questão de segurança, blindagem contra prejuízos e garantia de que o seu negócio vai continuar de portas abertas”.
Por isso, Kawano defende que os períodos de maior risco sejam incorporados ao planejamento empresarial, com planos de contingência para situações como falta de energia, interrupção de acessos e falhas no abastecimento. “No fim das contas, para o setor de comércio e serviços, ter resiliência é isso, garantir que a empresa saiba se adaptar e continue funcionando mesmo quando fatores ambientais e climáticos afetam duramente a infraestrutura da cidade.”
O combate aos incêndios está relacionado ainda às estratégias de sustentabilidade e à gestão dos riscos climáticos. As consequências do fogo podem atingir fornecedores, cadeias logísticas, sistemas de energia e mobilidade, criando impactos que se estendem muito além da área diretamente atingida pelas chamas.
A prevenção passa a integrar uma visão mais ampla de ESG, especialmente quando as empresas incorporam os riscos ambientais e climáticos à sua matriz de riscos e às decisões estratégicas. “Ela deve ser entendida como instrumento de proteção do patrimônio, do capital natural e da própria continuidade dos negócios”.
Cinco frentes para proteger a empresa
Kawano assegura que a preparação empresarial passa por cinco frentes principais. “Prevenção dentro do estabelecimento, preparação para eventos externos, continuidade do negócio, comunicação e sustentabilidade. Isso significa manter instalações e equipamentos em boas condições, controlar materiais combustíveis, estabelecer planos de contingência, definir procedimentos para preservar as operações essenciais e preparar canais de comunicação com colaboradores e clientes”, detalha.
Também é necessário incorporar os riscos climáticos e ambientais à estratégia empresarial, deixando de tratá-los como situações excepcionais e passando a considerá-los parte do planejamento de longo prazo. “Sustentabilidade e ESG significam incorporar os riscos climáticos e ambientais de forma definitiva na matriz de riscos e nas decisões estratégicas da empresa”, completa.
Kawano reforça a necessidade de uma mudança de perspectiva. “Prevenir incêndios florestais é, antes de tudo, uma forma de proteger o próprio negócio. As chamas podem destruir ativos físicos, paralisar operações, desestruturar cadeias de suprimento, prejudicar a saúde de quem trabalha e ainda lançar poluentes e gases de efeito estufa para a atmosfera. É por isso que a prevenção precisa sair do papel e entrar de vez na gestão de riscos, na estratégia ESG e nos pilares de resiliência das empresas”.




